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Blog da tia Dag
  • O "Mercado"

    Postado dia 9/8/2010 por Dagmar Rivieri Garroux às 1 comentário
    Cada dia que se passa, mais se ouve falar nas demandas do Mercado de Trabalho, sempre, em um tom progressivo de exigências e intransigências.

    Se para o jovem de classe média – que tem condições de pagar o ensino particular e cursos extracurriculares – arrumar um bom emprego já é um desafio monumental, imagine para o jovem de periferia, que, na maioria dos casos, nem chega a ter contato com o mundo do Século XXI. Isso sem entrar  nos preconceitos, julgamentos visuais, etc.

    Dessa forma, as dificuldades crescem como uma bola de neve desastrosa. Toda a lógica de ensino gira em torno do conhecimento adquirido em “uma mão só”.

    Isto ocorre não por opção das pessoas, mas por necessidade. Uma vez que é esse tipo de conhecimento tido como primário pelo tal do "Mercado", que muitas vezes é desenhado como um personagem macabro de um filme de terror.

    Para exemplificarmos, é só pensarmos em uma entrevista de emprego, em que, por via de regra, primeiro avalia-se o inglês, informática, histórico profissional e exigências exigências exigências... Para, só depois de descartar impiedosamente os que não se encaixam em 100% dos tópicos, se avaliar as virtudes humanas e coletivas do candidato.

    Esquece-se, todavia, que essas exigências comuns são mais fáceis de serem aprendidas do que valores de caráter.

    Na Casa do Zezinho fazemos questão de estarmos sempre em condições de oferecer o conhecimento adquirido para nossos jovens, porém, sem nunca deixá-los se esquecer de ser humano e não máquinas programadas.


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  • IMPUNIDADE NÃO!!!!!!!

    Postado dia 10/11/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 12:14 1 comentário
    O tempo passa, mas a lembrança persiste.
     
    Mais uma vítima da idiotice do sistema, Alberto poderia estar aí conosco, formando mais Zezinhos, encaminando e dando exemplo.
     
    Isto ninguém ressarce, e ninguém deve jamais esquecer.
     
    À família de Alberto, nossa solidariedade e a certeza de que não passará desapercebido mais esta descabimento. Dividimos com vocês esta dor e esta indignação.
     
    Simão & Família
     


    Categoria: Reflexões
  • 1 ANO DE IMPUNIDADE!!!

    Postado dia 10/11/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 12:11 Nenhum comentário
    1 ano de impunidade
    Dia 10 de novembro (3ª feira) faz um ano da morte do ex Zezinho Alberto Milfont Jr., assassinado por um segurança nas dependências da loja Casas Bahia da Estrada de Itapecerica, no Campo Limpo.
    Nesta mesma data em 2008, Alberto, com 23 anos, foi comprar um colchão com a esposa Darilene e mais um amigo e, enquanto aguardava o pagamento das compras, o segurança Gilberto Silva Souza, de 29 anos, o abordou e o expulsou da loja. Houve uma discussão entre os dois, e o segurança acabou sacando a arma e atirando em Alberto.
    Alberto morava no bairro Jardim Antonieta, em no Campo de Fora. Foi aluno da Casa do Zezinho entre 1995 e 2004. Quando criança gostava de fazer atividades como capoeira, esportes, arte educação e papel reciclado. Ao longo do tempo ele foi se interessando por outros projetos como informática, silkscreen e padaria. Lá ainda, tornou-se voluntário do projeto Fim de Semana com Arte, e ao invés de receber seu salário, preferiu doá-lo para a Casa como forma de gratidão. Em 2005, a ONG o encaminhou para o mercado de trabalho, onde atuou nas empresas Promon e na produtora de cinema O2. Alberto saiu da produtora para trabalhar com o tio numa pequena metalúrgica.
    Este é o retrato de mais um crime na periferia da cidade que segue impune, sendo que até hoje, um ano após o acontecido, o assassino continua gozando de sua liberdade.


    Categoria: Reflexões
  • Reportagem da Folha de S. Paulo - Entrevista Martin Carnoy

    Postado dia 10/8/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 20:24 3 comentários
    Pessoal, vou postar uma entrevista que saiu na Folha de S. Paulo de hoje (Segunda).

    É um economista que leciona na Universidade Stanford, a mais importante da Califórnia e uma das mais importantes dos EUA. Ele se chama Martin Carnoy, e faz algumas reflexões sobre a educação no Brasil e de modo geral.

    Fonte: Folha de S.Paulo - 10/08, Caderno Ilustrada.
    Link p/ assinantes: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1008200914.htm


    MARTIN CARNOY

    "Professores brasileiros precisam aprender a ensinar"

    Para economista, é preciso supervisionar o que ocorre na sala de aula no Brasil; problema também afeta escola particular

    Letícia Moreira/Folha Imagem
     
    Martin Carnoy durante entrevista e, São Paulo sobre estudo em que compara os sistemas de educação do Brasil, Chile e Cuba

    MARIA CRISTINA FRIAS
    ROBERTA BENCINI
    DA REPORTAGEM LOCAL

    "POR QUE alunos cubanos vão tão melhor na escola do que brasileiros e chilenos, apesar da baixa renda per capita em Cuba?" A pergunta norteou estudo do economista Martin Carnoy, professor da Universidade Stanford, que filmou e mensurou diferenças entre atividades escolares nos três países. No Brasil, o professor encontrou despreparo para ensinar e atividades feitas pelos alunos sem controle. "Quase não há supervisão do que ocorre em classe no Brasil."
    Para ele, o problema também atinge a rede particular. "Pais de escolas de elite pensam que estão dando ótima instrução aos filhos, mas fariam melhor se os colocassem em uma escola pública de classe média do Canadá." Carnoy sugere filmar o desempenho dos professores. "Não basta saber a matéria. É preciso saber como ensiná-la." Ele esteve no Brasil na semana passada para lançar o livro "A Vantagem Acadêmica de Cuba", patrocinado pela Fundação Lemann.
     

    FOLHA - O que mais chamou a sua atenção nas aulas no Brasil?
    MARTIN CARNOY
    - Professoras contratadas por indicação do secretário de Educação do município, que dirigem a escola e vão lá de vez em quando; 60% das crianças repetem o ano, e professoras pensam que isso é natural porque acham que as crianças simplesmente não conseguem aprender. Fiquei impressionado, o livro [didático usado na sala de aula] era difícil de ler. Precisaria ter alguém muito bom para ensinar aquelas crianças com ele. Ficaria surpreso se qualquer criança conseguisse passar [de ano]. Vi escolas na Bahia, em Mato Grosso do Sul, em São Paulo, no Rio... [entre outros].

    FOLHA - Qual a metodologia do estudo?
    CARNOY
    - Como economista, usei dados macro para explicar as diferenças entre os países nos testes de matemática e linguagem. Fizemos análises com visitas a escolas e filmamos classes de matemática e analisamos as diferenças entre as atividades em classe. Há uma grande diferença, pais cubanos têm renda baixa, mas são altamente educados, em comparação com os do Brasil. O estudo foi finalizado em 2003 e depois comparamos Costa Rica e Panamá. Na Costa Rica, há coisas engenhosas, aulas com duas horas, em que se pode realmente ensinar algo. Supervisionar a resolução de problemas de matemática e, principalmente, discutir resultados e erros. Os alunos cubanos têm aulas acadêmicas das 8h às 12h30. Depois, almoço. Voltam às 14h e ficam até as 16h30, quando têm uma sessão de TV por 40 minutos. A seguir, artes e esportes, mas com o mesmo professor.

    FOLHA - Ter o mesmo professor durante quatro anos (como os cubanos) é uma vantagem?
    CARNOY
    - Quatro anos, pelo menos. Mas os alunos não mudam de um ano para outro. No Brasil, se alunos e professores mudam muito de escola, como fazer isso? Se a ideia é tão boa, se funciona, deveríamos fazer algo para que pelo menos professores não mudassem tanto.

    FOLHA - Qual a sua avaliação sobre a proposta da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo que vincula o aumento de salário à permanência do professor na mesma escola e à aprovação em testes?
    CARNOY
    - Sugeri ao secretário Paulo Renato que acrescentasse um teste: filmar o professor, como no Chile. Professores de outra escola avaliam os videoteipes. Professores podem ser bons nos testes, mas péssimos para ensinar. Se você tiver um professor experiente que foi bem ensinado a ensinar e teve um bom desempenho com os alunos, a diferença é visível em relação a uma pessoa sem experiência, como eu. Profissionais que viram as fitas disseram que há grande diferença entre o professor cubano e o brasileiro.

    FOLHA - A Secretaria da Educação pretende oferecer curso de treinamento de professores de quatro meses. Em Cuba, dura 18 meses, para o nível médio. O que é importante num treinamento?
    CARNOY
    - [Em Cuba] São oito meses para a escola fundamental. Mas são para os professores que não foram à faculdade. Você deve se lembrar que houve escassez de professores, com o incremento do turismo, que atrai pelo pagamento em dólares. Tiveram de produzir muitos professores, muito rapidamente. Então, pegaram os melhores estudantes do ensino médio e lhes ofereceram cinco anos de universidade nos finais de semana. O que é importante nesses cursos de treinamento é ensinar como dar o currículo, como ensinar matemática. O Estado deve estabelecer padrões claros, como na Califórnia. Isso é o que tem de ser ensinado em matemática no terceiro ano. No Chile, há um currículo nacional, mas não ensinam aos estudantes de pedagogia como ensinar o currículo.

    FOLHA - O sr. dá muita importância ao diretor...
    CARNOY
    - E também à supervisora, que em muitas escolas no Brasil não fazem nada, não entram em sala. Em Cuba, diretores e vice-diretores ou supervisoras assistem às aulas. Nos primeiros três anos de serviços de um professor, eles entram muito, ao menos duas vezes por semana. São tutores que asseguraram que a instrução siga o método e o nível requeridos pelos padrões estabelecidos.

    FOLHA - Os bônus a professores, como ocorre no Estado de São Paulo, são um bom caminho?
    CARNOY
    - Não há boas evidências de que esse sistema de estímulo funciona. O modelo usado em São Paulo, em que todos os professores ganham mais dinheiro se a escola atingir a meta, pode funcionar. Tentaram isso na Carolina do Sul, no final dos anos 80. Foi um grande sucesso por poucos anos e, depois, deixou de sê-lo porque não houve mais melhora. Eles só atingiram um certo limite e não conseguiram mais progredir. Há o efeito inicial do esforço e depois, quando as pessoas têm que saber melhor como aprimorar o desempenho dos alunos, nada acontece. E não existe mais na Carolina do Sul. O que tem sido feito, em geral, nos EUA não é bônus, mas punição. Se a escola fracassa em atingir a sua meta em três anos, como na Flórida, os estudantes podem receber vouchers e frequentar escolas particulares, em vez de públicas. A forma como estão fazendo em São Paulo não é a melhor. Eles medem neste ano como a segunda série aprende e, no próximo, quanto a segunda série aprende. Mas não os mesmos alunos. Escolas pequenas têm mais chance de receber bônus do que grandes. Se a escola cai, não há punição. Só não recebe bônus. Não estou defendendo punição, só digo que eles [bônus] são mal mensurados. Você pode fazer como em São Paulo, mas não dar bônus todo ano, e sim a cada dois anos. E aí poderá ver o que se ganhou com os alunos que se mantiveram na escola e ter as médias, mas com as mesmas crianças através das séries. O problema da falta de professores é mais grave porque é sobretudo um absenteísmo autorizado, não é ilegal. Em Cuba, professores e alunos faltam pouco. É tudo controlado.

    FOLHA - Melhorar o ensino público provocaria uma avanço na educação como um todo, inclusive nas escolas particulares?
    CARNOY
    - Pais de escolas de elite pensam que estão dando ótima instrução aos filhos, mas fariam melhor se os colocassem em uma escola pública de classe média do Canadá. Mesmo os melhores docentes brasileiros são menos treinados do que os de Taiwan. Os melhores professores no Brasil têm em média desempenho abaixo da média do professorado de países desenvolvidos. Investir e melhorar a escola pública, que é a base de comparação dos pais, elevaria o resultado das melhores escolas particulares também. Professores são bons em pedagogia, mas não no conhecimento a ser ensinado. Não treinam muito matemática e não sabem como ensiná-la.

    FOLHA - O que do modelo cubano não pode ser transposto considerando que Cuba vive sob ditadura?
    CARNOY
    - Há, de fato, uma falta de criatividade [no ensino]. Não se pode questionar, ser contra a Revolução. Mas as crianças sabem que estão aprendendo o esperado. São bons em matemática, sabem ler bem e aprendem muita ciência, mesmo nas escolas rurais ou de bairros urbanos de baixa renda. O Brasil tem a capacidade de enfrentar esses problemas [ter crianças bem nutridas, com bom atendimento médico]. Por que em uma sociedade com uma renda per capita que não é tão baixa não se faz isso? Acho que tem de ser construído um sistema de supervisão, com pessoas capazes de ensinar e treinar novos professores a ensinar. Os professores no Brasil estudam muito linhas de pedagogia e menos como ensinar. Podem esquecer tudo aquilo de Paulo Freire, um amigo. Devem ler sua obra como exercício intelectual, mas queremos que professores saibam ensinar.

    FOLHA - Não é possível conciliar na América Latina bom ensino com autonomia, democracia?
    CARNOY
    - A melhor escola é a que tem professores com democracia. Mas temos de ter um acordo de quais são os nossos objetivos. Tony Alvarado é um supervisor em Manhatan que trocou metade dos professores e dos diretores para melhorar a qualidade das escolas. Ele disse aos professores: "Este é o programa. Vão implementá-lo comigo ou não? Têm uma semana para pensar. Se não quiserem, são livres para sair".

    FOLHA - No Brasil seria mais difícil...
    CARNOY
    - Seria muito mais fácil! Um quarto do professorado muda de escola todo ano! Em Nova York, não se demitiu. Alvarado mandou-os para outros bairros. Precisa, no início, de um certo autoritarismo. Porque alguém tem de dizer o que fazer no início. E depois, sim, há uma democracia. Os diretores devem se preocupar com os direitos das crianças. Em Cuba, é o Estado. Aqui, os sindicatos de professores preocupam-se com os direitos dos associados - e estão em certos em fazê-lo. Mas e as pobres crianças que não têm sindicatos para defender seus direitos à educação?



    Categoria: Reflexões
  • Ponha-se no meu lugar

    Postado dia 21/5/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 11:41 2 comentários

    Quem nunca ouviu ou disse essa frase?

     

    O pré-julgamento e a incompreensão são, com certeza, os fatores mais explícitos no mundo que levam as pessoas a bradar essa frase.

     

    Muitas vezes é usada como desculpa esfarrapada, fato. No entanto, quando ela é usada do modo coerente, ou seja, aquele em que se pede para que a pessoa compreenda a situação qualquer em que esteve envolvida.

     

    O grande problema é que quase nunca essa frase é levada à sério – “Ponha-se no meu lugar!” – e isso não acontece.

     

    A compreensão, a capacidade de perdoar, etc. são aspectos básicos, primordiais em qualquer convivência em sociedade, comunidade... Família.

     

    É sempre bom, sadio da parte de uma pessoa, por mais difícil que “seja” em momentos de irritação, ouvir o outro lado, o que o próximo têm a dizer.

     

    Afinal quem não gostaria de bradar à plenos pulmões ao seu prefeito, governador, deputado, senador, presidente: “PONHA-SE NO MEU LUGAR!!” ?



    Categoria: Reflexões
  • Letra de Música

    Postado dia 5/5/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 19:44 Nenhum comentário
    Hoje vou postar uma letra, o nome da canção é Pour Les Enfants du Monde Entier (Para as Crianças do Mundo Inteiro)

    Pour les enfants du monde entier
    Qui n'ont plus rien à espérer
    Je voudrais faire une prière
    À tous les Maîtres de la Terre
    À chaque enfant qui disparaît
    C'est l'Univers qui tire un trait
    Sur un espoir pour l'avenir
    De pouvoir nous appartenir
    J'ai vu des enfants s'en aller
    Sourire aux lèvres et cœur léger
    Vers la mort et le paradis
    Que des adultes avaient promis
    Mais quand ils sautaient sur les mines
    C'était Mozart qu'on assassine
    Si le bonheur est à ce prix
    De quel enfer s'est-il nourri?
    Et combien faudra-t-il payer
    De silence et d'obscurité
    Pour effacer dans les mémoires
    Le souvenir de leur histoire?
    Quel testament, quel évangile
    Quelle main aveugle ou imbécile
    Peut condamner tant d'innocence
    À tant de larmes et de souffrances?
    La peur, la haine et la violence
    Ont mis le feu à leur enfance
    Leurs chemins se sont hérissés
    De misère et de barbelés
    Peut-on convaincre un dictateur
    D'écouter battre un peu son cœur?
    Peut-on souhaiter d'un président
    Qu'il pleure aussi de temps en temps?
    Pour les enfants du monde entier
    Qui n'ont de voix que pour pleurer
    Je voudrais faire une prière
    À tous les Maîtres de la Terre
    Dans vos sommeils de somnifères
    Où vous dormez les yeux ouverts
    Laissez souffler pour un instant
    La magie de vos cœurs d'enfants
    Puisque l'on sait de par le monde
    Faire la paix pour quelques secondes

    TRADUÇÃO

    Para as crianças do mundo inteiro
    Que não tem mais nada a esperar
    Eu não queria fazer uma oração
    Dirigifa a todos os donos da Terra
    A cada criança que desaparece
    É o Universo que tira um traço
    Sobra uma esperança para o futuro
    De poder nos pertencer
    Sorriso nos lábios e coração ligeiro
    Para a morte e o paraíso
    Que adultos tinham prometido
    Mas quando eles pisavam nas Minas
    Era Mozart que se assassinava
    Se a felicidade é a este preço
    De que inferno ela se nutre?
    E quanto terá que se pagar
    De silêncio e de obscuridão
    Para apagar das memórias
    A lembrança de suas histórias
    Que testamento, que evangilo
    Que mão cega ou imbecil
    Pode condenar tanta inocência
    A tantas lágrimas e tanto sofrimento
    O medo, o ódio e a violência
    Puseram fogo à infância deles
    Nos caminhos deles se ergueram
    Miséria e arame farpado
    Será que pode se convencer um ditador
    Escutar um pouco o seu coração?
    Será que pode se esperar de um presidente
    Que ele chore também de vez em quando?
    Para as crianças do mundo inteiro
    Que só tem voz para chorar
    Eu queria fazer uma oração
    Dirigida a todos os donos da terra
    Nos seus sonos de soníferos
    Onde vocês dormem de olhos abertos
    Deixem soprar por alguns instantes
    A magia dos seus corações de crianças
    Porque se sabe pelo mundo
    Fazer a paz por alguns segundos



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  • Sonho de educação

    Postado dia 30/4/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 2:42 2 comentários
    Uma frase para hoje:
    É pela educação que o Brasil poderá realizar seus sonhos. Do jeito que vai, teremos simplesmente muitos pesadelos.

    Categoria: Reflexões
  • Conhecer para educar

    Postado dia 23/3/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 16:45 2 comentários
    Como um professor com 3, talvez 4 turnos diários pode realmente conhecer seus alunos?

    Os professores são mal pagos, mal preparados (estatísticas apontam que mais de 40% dos professores da rede pública de São Paulo não seriam aprovados na matéria que eles próprios ensinam), e ainda seguem os mesmos métodos de séculos atrás.

    O aluno muitas vezes vão à escola passando fome, saindo da hostilidade da vida de violência da família e da sociedade para "estudar" num lugar que nem os professores acreditam nele.

    Quantos jovens não moram perto de biqueiras, não apanham dos pais por qualquer coisa? Quantos não chegaram com a mão queimada, com roxo no corpo todo por motivos mínimos?

    Como é possível haver educação, pedagogia, aprendizado nesse ambiente de stress e ódio?

    Será que a escola se preocupa com o ambiente familiar e social da criança? Com certeza não. Muitos não têm nem mesa para fazer a lição de casa, quanto mais cartolina, computador, etc. Quando um pseudo-educador diz "você é burro, não vai aprender nunca", ou aplica castigos, ele não tem idéia de que a criança, o jovem já passa por situações muito piores no próprio lar "Se eu soubesse que você seria assim, teria te abortado" - "Você não presta nem para roubar"

    As instituições continuam nesse padrão unilateral de "nós mandamos, vocês obedecem", sem dar a mínima para o SER HUMANO que deposita seu futuro e suas esperanças na escola. Nas fatídicas reuniões de "pais" e de "mestres", são mais pedras atiradas pelo professor para cima do aluno, e aí por consequência óbvia mais violência em casa.

    Essa para mim é a maior forma de violência: a falta de palavras, de diálogo. O mundo mudou em tudo, a escola parou no tempo. Para ensinar, educar, é preciso escutar, entender, respeitar.

    Categoria: Reflexões
  • Violência em casa

    Postado dia 10/3/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 12:20 Nenhum comentário
    Sempre que assistimos aos jornais, infelizmente, nos deparamos cada vez mais com casos de violência sexual com crianças.

    Padrasto que estupra aqui em São Paulo, Rede de pedofilia em Catanduva, Menina de 9 anos grávida em Pernambuco. Fora os que não chegam à mídia.

    Como podemos pensar em progresso, desenvolvimento, avanço, século XXI, quando a população não respeita a integridade de uma criança, que não tem meios de se defender?

    18 mil crianças vítimas de violência doméstica por dia no país, 6,5 milhões de maus tratos por ano.

    100 mil crianças vítimas de abusos sexuais no Brasil por ano, 1 milhão no mundo.

    É um número simplesmente absurdo para não ser combatido com eficiência.

    O lar, que deveria ser sinônimo de aconchego, proteção, amor, é para essas crianças e jovens mais um lugar de maus tratos, terror, imposição, ódio. Sendo mais um exemplo de violência para o futuro do país.

    A violência começa em casa.



    Categoria: Reflexões
  • Insubstituíveis

    Postado dia 27/2/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 11:53 1 comentário

    Estava hoje checando minha caixa de e-mails, quando de repente me deparo com esse texto:

    “Na sala de reunião de uma multinacional o diretor nervoso fala com sua equipe de gestores. Agita as mãos, mostra gráficos e, olhando nos olhos de cada um ameaça: "ninguém é insubstituível".
    A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao silêncio. Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça. Ninguém ousa falar nada. De repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar o atrevido:

    - Alguma pergunta?
    - Tenho sim. E o Beethoven?
    - Como? - o encara o gestor confuso.
    - O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu o Beethoven?
    Silêncio...

    Ouvi essa estória esses dias, contada por um profissional que conheço e achei muito pertinente falar sobre isso. Afinal as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas, no fundo continuam achando que os profissionais são peças dentro da organização e que, quando sai um, é só encontrar outro para por no lugar.

    Quem substitui Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Gandhi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Machado de Assis? Pelé? Marlon Brando? Albert Einstein? Elis Regina? Picasso?Da Vinci? Zico?

    Todos esses talentos marcaram a História fazendo o que gostam e o que sabem fazer bem, ou seja, fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são sim insubstituíveis.

    Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa. Está na hora dos líderes das organizações reverem seus conceitos e começarem a pensar em como desenvolver o talento da sua equipe focando no brilho de seus pontos fortes e não utilizando energia em reparar 'seus gaps'.

    Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo, se Picasso era instável, Caymmi preguiçoso, Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico... O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos.

    Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto.

    Se seu gerente/coordenador, ainda está focado em "melhorar as fraquezas" de sua equipe corre o risco de ser aquele tipo de líder que barraria Garrincha por ter as pernas tortas, Albert Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo e Gisele Bündchen por ter nariz grande. E na gestão dele o mundo teria perdido todos esses talentos.

    Nunca me esqueço de quando o Zacarias dos Trapalhões "foi pra outras moradas"; ao iniciar o programa seguinte, o Dedé entrou em cena e falou mais ou menos assim:

    "Estamos todos muitos tristes com a 'partida' de nosso irmão Zacarias... e hoje, para substituí-lo, chamamos:.. Ninguém... pois nosso Zaca é insubstituível"

    Assim como eu e você!!! Somos seres Únicos, cheios de qualidades, Ímpares, insubstituíveis”

     

    Se formos pensar bem, não são apenas as multinacionais (exemplo do texto) que exigem das pessoas algo robótico, preso, frio.

    Esse pensamento vigora, infelizmente, em quase tudo ao nosso redor.

    No caso do ensino, desde os diretores, zeladores, professores e, claro, os alunos são podados de forma a fazerem sua função como meros números, listas, papéis.

    São muito poucas as instituições que estimulam a criatividade e as qualidades individuais de cada um, e mesmo que tentem fazer, tanto os educadores quanto os estudantes em algum momento foram treinados para fazer o básico, para seguirem a lógica do “ninguém é insubstituível”.

    Por que o aluno tem de entregar o trabalho X do jeito tal?

    Por que o educador tem de aplicar provas por escrito, o pior de tudo, obrigado por lei?

    Por que a figura do coordenador/diretor tem de ser amedrontadora, como é na maioria das escolas?

    Enquanto os robôs de fibra de aço não ficam prontos, os chefes se contentam com os de carne e osso.

    E, tristemente, não entendem que robô nenhum terá uma das qualidades mais belas que existem: a criatividade.

    Jamais podemos esquecer que nós não somos produzidos em série. Nós nascemos únicos e temos de desenvolver essa unicidade.



    Categoria: Reflexões
  • A Condição de Educador

    Postado dia 19/2/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 11:50 1 comentário

    Para se educar de verdade é preciso conhecimento, vontade e cuidado.

    A pergunta é: quantos dos que se dizem educadores têm essas três virtudes?

    Cada vez mais, vemos notícias de professores que batem e apanham, que usam métodos ultrapassados de ensino, que se consideram uma autoridade inquestionável, que se limitam... à lousa e giz.

    As duas notícias mais 'quentes' de educação que estão na mídia no momento são de deixar qualquer um de cabelo em pé.

    Primeiro uma professora de Manaus que colava a boca de crianças na sala de aula como castigo (foi afastada, como não poderia ser diferente).

    A outra, mais próxima de nós, constata que de 214 mil professores do estado de São Paulo que foram avaliados em teste, apenas 111 sabem 100% do conteúdo que passam para os estudantes. Enquanto 3 mil tiraram zero no teste. No total mais de 60% ficaram abaixo da média.

    Como cobrar um jovem que não tem amparo nenhum da família, sociedade, governo e além de tudo, é ensinado por alguém sem vontade, sem criatividade e o pior, sem conhecimento?

    O conceito de educação no Brasil está à beira da extinção. Enquanto governo, professores e estudantes considerarem o ensino como uma mera 'etapa burocrática' continuaremos com os mesmos velhos problemas.



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  • Estoque de Conhecimento

    Postado dia 6/2/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 1:30 Nenhum comentário

    Estoque de conhecimento

    É simplesmente impensável termos um mundo cada vez mais rápido, globalizado e termos cada vez mais individualismo, uma necessidade de mostrar que "é capaz", que "não precisa de ajuda". Com esse padrão presente em todas as classes sociais e em todos os ramos de atividades, podemos perceber que cada vez mais estamos ignorando o "estoque de conhecimento" do próximo. Seja por falta de tempo para observar, ouvir, dar tempo ao outro ou, claro, aos preconceitos absurdos que continuam a vigorar.

    Na periferia, pessoas que lutam para sobreviver no dia-a-dia, conseguem, com pouquíssimos recursos, produzir arte, comida, música, dança, erguer casas, montar negócios, etc. Imaginem se tivessem os materiais/recursos  de formação e informação, e principalmente se tivesem educação de qualidade.


    O primeiro passo é a escola ouvir, incentivar a pesquisa, fornecer mediação para os conhecimentos, estimulá-lo mesclando a forma prática, cotidiana de como ele foi obtido, com a parte teórica, técnica que se pode obter dele. Para tal, é preciso que se deixe ensinar com liberdade, que se desperte a individualidade de cada conhecimento em cada pessoa. É isso que acreditamos e passamos para os jovens da Casa do Zezinho.



    Categoria: Reflexões
  • Ano novo: Vida nova?

    Postado dia 16/1/2009 por Dagmar Rivieri Garroux às 15:2 2 comentários

                Promessas, metas, mudanças, vou fazer isso, não vou fazer mais aquilo, quero um carro novo, casa nova, mudança de ares. Para alguns, festa, fartura, fogos de artifício, champanhe, musiquinha da Globo, etc, etc, etc. Todo final de ano ouvimos a mesma história. Coloca-se muita expectativa, esperança em cima de um dia apenas. Porém, quantas situações trágicas não vivenciamos nessa data que deveria ser de "união, compreensão e esperança"?

                Nessa época, a periferia sofre muito com as chamadas "celebrações". É imenso e assustador o número de casos de abusos, maus tratos com crianças, brigas – mortes.

    Pais que bebem, brigam, matam, morrem, tudo sendo assistido ao vivo e a cores por seus filhos. Mães que abandonam os filhos para festejarem até o último segundo do 1º dia do ano e assim começam as festas do ano inteiro.

                Um exemplo: uma criança de nove anos tentando fazer sua própria comida numa espiriteira com álcool, e se queima, pois sua mãe havia saído para arrumar dinheiro para o gás. Outro caso foi o do orfanato Lar São Thiago, em Itapecerica da Serra, que foi levado por 2m de água numa enchente, deixando 54 crianças que esperam por adoção abandonadas.

                Ano novo, vida velha, os problemas persistem, mas as celebrações e os "egoísmos" continuam os mesmos.

                A partir de segunda-feira (19/01) iremos mostrar mais casos provenientes das "festas" de Ano Novo que chegam até nós. Por enquanto, pedimos imensamente que ajudem o orfanato Lar São Thiago.

    http://www.larsaotiago.org/contato.html



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  • Minha entrevisa para a Folha Universal

    Postado dia 3/12/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 3 comentários
    Fonte: http://folha.arcauniversal.com.br/integra.jsp?codcanal=9983&cod=141078&edicao=869

    Por Juliana Vilas

    Dagmar Garroux é pedagoga há 30 anos. Em 1986, fundou, na zona sul paulistana, a Casa do Zezinho, um bem sucedido “pólo educativo contra a violência”, como ela chama. Na Casa, que hoje atende 1,2 mil crianças e jovens e tem fila de espera de até 4 anos para matrícula, ela é a “Tia Dag”. No começo do mês, ela visitou o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a convite da secretária estadual de Educação fluminense, que pretende implantar por lá o revolucionário e eficaz método de ensino criado por Dag e aplicado na Casa, a
    Pedagogia do Arco-Íris.


     1 – As escolas públicas do Brasil são ruins. Até os estudantes falam em falta de pulso. O que você acha? 

    Essa, para mim, é uma visão errada, baseada na lógica da repressão. A escola pública pune desde a ditadura. Na minha experiência com população de periferia, de baixa renda, percebo que a escola isola o aluno. O que ela ensina não condiz com a realidade deles. No livro paradidático está o texto: “papai tirou o carro da garagem, mamãe tirou as compras do supermercado”. E eu pergunto: mas que carro? Que papai? E que compras?
     
    2 – Qual é a realidade deste aluno?


    Violência. Ele mora numa casa pequena e lotada, sem saneamento, sem saúde, sem acesso aos espaços de lazer que estão no centro. E pai? Como assim? Totalmente fora da vida real. A medicina avançou, a engenharia também, mas a escola não. As aulas são: 40 minutos de português, acabou, 40 minutos de geometria, acabou. Mas quem raciocina dessa forma? Essa escola não tem mais nada a ver com o século 21.
      
    3 – O que mais está errado? Qual seria o modelo ideal?

    Para eles, a escola é sinônimo de terror: cheia de grades, cinza, feia. A professora só reclama, diz para a mãe que o filho não faz nada e quando ela chega em casa, cansada de um dia de trabalho, depois de ouvir reclamações como essa, bate. E o filho, além de ficar com ódio da escola e da professora, que causaram uma surra, cresce e revida a violência que sofreu. O corpo docente precisa conhecer as famílias dos alunos, integrar a escola com a comunidade. Quando me dizem que os alunos depredam, batem, desrespeitam, eu já até sei que a escola não fez isso.

    4 – Os alunos não chegam com uma carga pesada de raiva e traumas?

    Esse jovem é vítima de preconceito e convive com a violência. Ele vê que, para sobreviver, tem que ser forte, senão apanha. Esse jovem vive numa perversa seleção natural. Chegar vivo aos 7 anos, morando em favelas, é uma vitória. Ele, portanto, é um forte, não um simples revoltado. Mas precisa de carinho e auto-estima.

    5 – Qual o método usado na Casa do Zezinho? No que ele é diferente?

    É o que batizamos de pedagogia do
    arco-íris. Todo mundo se respeita. Ninguém berra e não tem castigo, porque não precisa. Crianças e jovens têm ótimas idéias, e nós temos paciência para abaixar e ouvir. Educar é um trabalho demorado. 

    6 – Nunca há conflitos?

    Sim, tenho conflitos aqui. Mas eles mesmos param, fazem uma roda e resolvem o problema. Em último caso, chamam um mediador. São profissionais que conversam e resolvem qualquer tipo de atrito, fazem mediação entre escola, família e alunos. Eles têm que considerar todos os pontos de vista. Os professores, em geral, trabalham em quatro turnos e não estão preparados para resolver questões fora do dia-a-dia da escola. As escolas não fazem mais festivais de música, de filosofia, de arte. Isso ajuda a integrar, chama as famílias.

     7 – Em novembro, um ex-aluno de vocês, Alberto Milfont Júnior, foi assassinado por um segurança das Casas Bahia. O que aconteceu?

    Ele foi um de nossos primeiros alunos e foi comprar um colchão na loja. Porque estava de chinelos e bermuda, o segurança veio abordá-lo e ele discutiu com o segurança. Claro, aqui ele aprendeu que tem direitos, que deve questionar um ato injusto. Ele mandou chamar o gerente e quando colocou a mão no bolso para pegar a nota fiscal, o homem apontou a arma.
     
    8 – Alberto era pacífico?

    Era. E muito conhecido aqui. A família estava pobre quando ele chegou na Casa e agora tinha uma vida bem melhor. A pedagogia ajuda filhos e família. Eu chamo de educação integral: o filho estuda, a mãe faz curso profissionalizante, o pai participa de programas de qualificação. O Alberto trabalhou em várias produtoras de vídeo e era voluntário aqui.
     
    9 – Como foi a reação dos amigos dele e dos outros alunos?

    Os jovens tiveram uma reação violenta. Perguntaram: “está vendo, tia Dag? Para que estudar, se nunca seremos vistos como homens de bem?” Eu deixei eles falarem, soltarem todos os bichos. E falei: “Se é assim, eu fecho a Casa do Zezinho. Meu pai foi assassinado há 10 anos. Eu fiquei triste, revoltada, e já estava aqui. Por que eu continuei com isso tudo?” Houve silêncio. “A gente não sabia disso”, disseram envergonhados. Continuei: “o que podemos fazer é mobilizar a sociedade. Vão nos seus blogs e multipliquem essa informação, deixem o mundo saber o que aconteceu”.
     
    10 – Como é a história da menina que estudou tanto para ser prostituta de luxo que virou dentista?

    Não adiantava fazer discurso moralista. Ela já tinha sido estuprada pelo padastro e fazia sexo em troca de comida e dinheiro. Eu disse que se ela queria mesmo vender o corpo, deveria estudar e cobrar bem, porque sem preparo passaria a vida se humilhando por pouco. Ela começou a estudar e cismou que uma prostituta de luxo deveria ter bons dentes. Prestou vestibular e hoje é dentista. A pedagogia do arco-íris é isso: ter inteligência e criatividade para lidar com cada aluno e ser sensível para falar a língua dele.



    Categoria: Reflexões
  • Consciência Humana

    Postado dia 24/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 18:8 Nenhum comentário
    No dia 20/11 foi celebrado o dia da consciência negra, que faz parte da semana da consciência negra. Esse dia é uma referência a data de morte de Zumbi dos Palmares, grande símbolo do movimento negro de resistência à escravatura

    A sociedade tem uma grande dívida histórica com os negros, disso todos sabemos. Mas o mais importante nessa história é pararmos para pensar: Até onde nós, sociedade, temos a chamada consciência humana, que todos vivemos na mesma casa.

     Não é preciso pesquisar muito para se encontrar casos recorrentes de dicriminação. É só olhar para os lados no dia-a-dia que veremos uma discriminação escancarada: Quantas vezes não se vêem pessoas barradas em todo o tipo de lugar só por causa da cor? Ora, outro dia assassinaram um Zezinho muito querido na porta das Casas Bahia. O motivo?  discriminação.

    Tenho audácia de ter esperança que hoje com os movimentos de consciência negra aliados às várias ONGs, associações e heróis "invisíveis" que lutam por um mundo mais justo, poderemos avançar para um mundo onde não seja necessário estabelecer cotas e mais cotas.

    A mudança começa em casa!


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  • 1° Emprego

    Postado dia 18/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 17:33 1 comentário

    - Vai tomar no cu!

    - Sim senhor, mas o senhor poderia estar comprando um de nossos produtos.

    - Vai tomar no cu!

    - Sim senhor, eu gostaria de estar falando sobre a nova dieta que as pessoas estão aderindo.

    - Vai tomar no cu! – insiste, desligando o telefone.

     

    Mais tarde diz o patrão:

    - Você não atingiu a meta de "vai tomar no cu" do mês, infelizmente tenho de estar despedindo você.

     

    Quantas vezes você já não foi "abordado" por um atendente de telemarketing? Quase sempre as pessoas nem escutam o que a pessoa do outro lado da linha está dizendo, apenas ficam concordando até terem a oportunidade de falar o "vai toma no cu" do dia.

     

    Pois é, a mentalidade que reina é:

    "Estou ocupado e não importa que você também esteja trabalhando e que você ganhe muito menos do que eu, não ligo para você e não estou disposto a te ajudar, na verdade, nem te considero um ser humano".

     

    O telemarketing é o exemplo mais caricato disso. Na realidade, esse é o reflexo do cenário de exclusão e intolerância que vivemos. Alguém já parou para pensar que tipo de problemas a pessoa que "gostaria de estar vendendo" um produto para você passa?  Que se o motoboy da buzininha chata não costurar o trânsito para chegar ao seu destino ele será demitido sumariamente? Claro que há casos e casos, mas está mais do que na hora de pararmos de generalizar negativamente – "essa raça de motoqueiros não presta" "esses caras do telemarketing só sabem encher o saco".

     

    Essa raça, esses caras, muitas vezes pegam duas conduções para ir e duas para voltar do trabalho, são centopéias que ficam horas em fila, são xingados o dia inteiro por tudo e todos. A troco de quê? A sobrevivência pura e simples. E olha que estão apenas entrando no mercado de trabalho. Enquanto isso vemos pessoas reclamando dos estágios com salário de R$1000, mais plano de saúde, vale-refeição etc.



    Categoria: Reflexões
  • Dedicação total a quem mesmo?

    Postado dia 17/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 2 comentários

    Estatísticas dizem que existem 2 seguranças particulares para cada policial. Obviamente quem contrata esses serviços não são os mais pobres, que representam 90% dos habitantes do país. Se refletirmos um pouco, chegamos inevitavelmente à pergunta (de resposta aparentemente fácil): De onde vem essa demanda tão grande por seguranças particulares?
     

    Bares, Shows, Hotéis, Bancos, Escolas, Estacionamentos, Hospitais, Shoppings, Supermercados, Escritórios, LARES. Aonde quer que você ande sempre irá se deparar com truculentos seguranças. Esses irão desconfiar de você de todas as formas possíveis e imagináveis. Irão olhar sua roupa, seu calçado, seu rosto, sua pele; não satisfeitos, lhe revistarão, lhe farão perguntas. Mesmo que esteja "limpo", ainda assim, se não forem com sua cara, não desgrudarão os olhos de você até que você saia. No Brasil é sempre assim, você é culpado até que se prove o contrário.
     

    O caso do "segurança" das Casas Bahia, que culminou no assassinato covarde do no Alberto, foi um exemplo bárbaro disso. Primeiramente, por que motivo esse sujeito estava armado? Quer dizer, os 10 anos de aprendizado que o Alberto teve na CZ e que nós tivemos com ele foram simplesmente implodidos por uma pessoa sem a menor competência para portar uma arma, uma pessoa que se sente dona do poder. Deveriam existir leis que realmente obrigassem essas empresas a capacitar melhor quem porta uma arma  de fogo. Para saber o que o excesso de armas causa, leia as notícias, veja o documentário "Tiros em Columbine". Uma parcela considerável da violência é fruto do número de armas de fogo.
     

    A maior parte das empresas, da "elite", prefere se armar e se esconder em fortalezas erguidas por um medo neurótico de violência, ao invés de combatê-la contribuindo para uma sociedade mais justa, financiando e criando projetos de assistência e educação. Enquanto considerarmos o próximo uma ameaça, jamais teremos paz.



    Categoria: Reflexões
  • Mabel comenta morte de Alberto

    Postado dia 16/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 15:37 Nenhum comentário
    Pessoal, segue o texto que minha amiga e co-fundadora da Casa do Zezinho, Mabel fez sobre o querido Alberto.

    Por que??? 

    Nós estamos chocados e tristes! Lamentamos pública e amplamente mais uma perda, desta vez de um jovem que a gente conhecia muito, Alberto, um menino do bem que teve sua vida estupidamente extirpada, por outro jovem, pra nós desconhecido.

    Quem é este infeliz, descontrolado que matou o ex Zezinho, nosso querido menino?

    Provavelmente alguém, filho de família pobre, “mau-educado” em escolas públicas de péssima qualidade. Provavelmente morador da periferia que conviveu com a violência e o descaso. Alguém sem cara e sem nome que sofreu pressões e o peso da exclusão.

    Até que um dia esse indivíduo conseguiu um bom emprego, vestiu terno e gravata, colocou uma arma na cintura e passou finalmente a ser visto, respeitado, a ter a sensação de poder. O poder de discriminar um jovem como ele, mas sem terno nem gravata, de bermuda e chinelos, talvez o mesmo figurino usado nas suas horas de folga.

    Existem algumas diferenças entre vítima e algoz . Só podemos citar com propriedade uma delas, o fato do Alberto ter tido a chance e a sorte de passar alguns anos de sua infância e adolescência na Casa do Zezinho, onde era reconhecido, respeitado e valorizado como ser humano. Afirmar que o Alberto era um jovem de bom caráter, podemos sim, dizer e repetir mil vezes. Em relação ao outro, não há como afirmar. Ele será julgado e terá que pagar pelo crime que cometeu, tenha ou não bom caráter, seja ou não uma pessoa do bem.

    Mas será que esse infeliz deveria ser o único a ser julgado?

    Sem dúvida há diferenças entre um segurança engravatado que defende o patrimônio de uma grande empresa e um segurança de uma boca de tráfico. Não se trata de defender um lado, ou  o outro. Mas de questionar os motivos que levam pessoas como ele, geralmente desprovidas de recursos em todos os sentidos, a tomar atitudes tão drásticas e condenáveis. Será que são delinqüentes? Ou serão vítimas de uma sociedade injusta que os exclui sistematicamente?  De uma sociedade que ao longo dos tempos descarta virtudes e qualidades, que se afasta cada vez mais dos atributos que definem o SER HUMANO ?

    Por que será que o Alberto morreu? Qual é o sentido disso? Que papel nos cabe nessa cena de violência tão lamentável?

    Aqui fica um recado para o Alberto: vamos continuar nosso trabalho, usar armas muito mais poderosas do que o revolver que tirou a tua vida, o olhar, a atenção, o ensinar com amor e alegria!

    Mabel – Casa do Zezinho




    Categoria: Reflexões
  • Poema de Susana Freitas sobre Alberto Milfonti

    Postado dia 12/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 22:10 1 comentário
    Segue esse poema que minha amiga Susana Freitas, que mora nos EUA, fez após saber da morte do nosso querido Zezinho Alberto:


    Morreu Mais Um Zezinho...

     

    Alberto, um Zezinho qualquer

    Alberto, um Zezinho de fé

    Gostava de dançar e cantar

    Fazia os outros gargalhar

    Pobre viveu e pobre morreu

    Mal vestido e sem luxo

    Talvez sem comida no bucho

    Alberto, o Zezinho povão

    Levou um tiro, certeiro e fatal

    Ficou no bolso a prova final

    Que era honesto, uma nota fiscal

    Pra mostrar que a prestação

    Do malfadado colchão

    Estava paga, na moral

    O vigilante ignorante

    Só viu as roupas velhas

    E num preconceituoso instante

    Partiu em cacos as telhas

    Que cobriam a vida

    De um Alberto, correto

    Pai de um bebezinho

    Agora, sem seu carinho

    Numa sociedade em chaga

    E num mundo que não afaga...

    Morreu mais um Zezinho...

    Mas não morreu a esperança

    Que a vida de Alberto

    Curta, simples, por certo

    Deixa o exemplo controverso

    De que viver na pobreza e  carência

    Pode iluminar o universo!

     

     

    Do meu coração, 12 de novembro de 2008




    Categoria: Reflexões
  • A Casa do Zezinho está de luto

    Postado dia 11/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 19:39 6 comentários
    A Casa do Zezinho está de luto. A ONG Casa do Zezinho mostra seu profundo repúdio e indignação. Um dos seus filhos queridos, o jovem Alberto Milfont Jr, (23), foi barbaramente assassinado dentro das Casas Bahia na Estrada de Itapecerica por um segurança terceirizado, que trabalha nessa instituição, na segunda feira por volta das 16 horas. O segurança, em sua defesa, alega que agiu assim porque simplesmente o jovem estava mal vestido.

    O jovem Alberto, mal vestido, morre com a nota fiscal, com comprovante de compra nas mãos.

    Enquanto aguardava dentro da loja, “roupa de trabalhador”, sua esposa Darilene (22) voltava do caixa aonde fora pagar a prestação da compra de um colchão. Foi abordado pelo assassino, terno preto. Depois de um bate boca ligeiro o segurança saca da arma e atira à queima roupa. O jovem tomba sem vida.

    Suas últimas palavras: Sou cliente, não sou ladrão!”. A partir daí se calou. Calou da mesma forma como estamos calados, sufocados há 400 anos. Que grande equívoco este país!

    Mal vestido, roupa de trabalho, é um sinal verde para o braço armado da sociedade, o assassino pago para atirar. Alberto deixa esposa e um filho de 5 meses. Alberto deixa morta a remota esperança de milhares de jovens brasileiros. Estudar pra que? Trabalhar pra que? Ser honesto pra que? Brasileiros alfabetizados, respondam honestamente essa pergunta!

    O menino brincalhão, comprido e de pernas finas entrou para a Casa do Zezinho aos 10 anos. Sua turma do Parque Santo Antônio já estava todinha ali. Vai ser muito legal, ali vamos nos divertir para valer. O jovem deixa excelentes recordações em toda nossa comunidade, onde permaneceu como um membro muito querido até 2003.
    Estava de casamento marcado com a jovem Darilene, com quem tinha um filho de apenas 5 meses.

    Suspeita e pobreza sempre juntas na nossa história.

    Nenhum (a) jovem “mal vestido” (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.

    Nenhuma revolta, nenhuma vingança organizada. Nada que a sociedade deva se preocupar. Apenas o destempero de um segurança idiotizado, uma peça para reposição. No Cemitério São Luiz o murmúrio surdo da mãe e da jovem esposa.

    Dentes cravados, os jovens cabisbaixos que acompanham o enterro trazem o sangue nos olhos. – O mano Alberto subiu!

    Com muita raiva seguimos com eles, solidários, para tentar preservar essa auto estima
    tão covardemente destruída desde o seu nascimento nas favelas.

    A vitória da morte exercida com eficiência certeira desde sempre no país pelo braço armado contratado pela sociedade dominante e pelos seus comparsas que dominam toda a estrutura de poder do estado.

    Pras Casas Bahia deixamos como lembrança o carnê saldado com a honra e a dignidade de um jovem trabalhador.

    Adeus mano Alberto!


    Segue o email de outro Zezinho Veterano que era amigo de Alberto, assassinado friamente por um "segurança" das Casas Bahia:

    "Oi, pessoal. Não sei se fiz bem, mas, escrevi este texto para a redação de um Jornal expressando o quanto estamos inconformado com o que aconteceu com o nosso amigo. Segue Abaixo
     

    Ser pobre, preto e favelado deste lado de cá da ponte não é tarefa para qualquer um; tem que ter flexibilidade do corpo e da mente, o olhar deve ser submisso e as atitudes devem ser moderadas. Pôr a mão no bolso pra sacar o documento que, supostamente deveria ser a identificação de cidadania, nem pensar, tentar comprar um colchão num dos maiores comerciantes do Brasil então... Nossa Senhora, é pedir pra morrer. Alberto era assim; preto, pobre, favelado e morava no Parque Santo Antônio. Era um menino de coração nobre, cresceu no meio da malandragem como tantas outras crianças, porém, nunca se envolveu, exceto quando era para aconselhar os manos para saírem daquela vida.

    Embora tenha estudado muito, nunca parou para pensar em fazer um curso superior, dizia saber a importância do estudo, mas, para o que almejava na vida a Faculdade era dispensável, queria ser vendedor, ter sua própria loja.

    Mas Alberto não pôde ver seu sonho realizado. A má capacitação e a desconfiança do segurança rondavam o menino que não ostentava no corpo uma grife de roupa famosa. Alberto estava feliz em poder fazer um crediário e comprar um colchão, já que o que possuía estava velho demais, entretanto, não pôde levá-lo para casa, pois, a mão assassina e a mente incapaz de dialogar, apertaram em cumplicidade, o gatilho vil que abreviou a vida daquele que somente queria comprar um colchão.

    Talvez se Alberto estivesse com um terno “Ricardo Almeida”, seria carregado nos braços até a sobre-loja, seria bem recebido e até café lhe serviriam, mas, infelizmente, ser pobre, preto e favelado deste lado de cá da ponte não é tarefa fácil para qualquer um."


    Marcos Lopes Nene


    Categoria: Reflexões
  • A Vida Que Eu Queria Ter.

    Postado dia 10/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 21:12 1 comentário

    "Eu não queria viver assim. Numa casa na beira de um rio, com parede cinza sujo, tão esburacada que dá pra ver o Zinho, meu vizinho. Cuidado com a chuva, que lá vem goteiras e enchentes. Queria morar onde o chão é pretinho, lisinho.

    Se eu chamasse Fernando, eu ia ter caderno, mochila, perfume, só para estudar igual aos meninos do outro lado do rio. Teria uma casa rosa, com parede branca lisinha. Teria um quarto, uma cozinha e uma sala. Que pena que meu nome é Zezinho, as pessoas do outro lado me consideram um Zé-Ninguém."

    São Paulo, a cidade mais rica do país, tem 11 milhões de habitantes, no entanto, quantos desses efetivamente podem dizer que moram com dignidade na cidade? Há um número gigantesco de pessoas que moram em casas caindo aos pedaços, amontoadas umas às outras, vizinhas de esgotos à céu aberto. Enquanto alguns, que não  têm consciência de vivem em palacetes cercados por um medo neurótico de segurança, outros vivem em condições subumanas, que entram em guerras diárias para ganhar o pão.

    Onde estão as praças? As quadras? A urbanização? Chegamos a um ponto de o que vier do governo é lucro. Não há, de fato, nenhum projeto sério, sincero que dê perspectivas reais à população da periferia. Há um verdadeiro Muro de Berlim no rio Pinheiros, do outro lado do rio tem "Cidade Limpa", tem obras grandes, desse lado, até há projetos, obras, mas fica no ar um quê de "será que os políticos realmente se importam?". O que falta, na realidade, é mais vontade humana de se integrar à City. Muitas pessoas ao invés de ficarem depressivas e traumatizadas quando são vítimas da violência deveriam pensar "eu sou cúmplice desse assaltante", "eu sou cúmplice da miséria, da corrupção, da fome".



    Categoria: Reflexões
  • Falta Comunicação

    Postado dia 7/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 21:19 Nenhum comentário

    Acredito que a violência acontece por falta de comunicação. Desde que o mundo é mundo, o ser humano sempre esbarra na palavra. Seja na guerra, no amor, na religião, enfim, sempre seja por parte de quem fala ou de quem escuta, sempre houve barreiras no diálogo. Muitas vezes, eu diria até que quase sempre, na vida de um jovem, sua capacidade de comunicação é oprimida. Ninguém o ouve, ninguém o atende, ninguém o leva à sério, seja na família, na escola No entanto, repreender, limitar, cercear a capacidade de expressão de um jovem é como impedir que a chuva não faça barulho. O povo, historicamente, sempre foi isolado, cerceado  das sociedades, e isso acontece até hoje, como, por exemplo, as fronteiras do Rio Pinheiros, em São Paulo.

    Ninguém
    o ouve, ele é oprimido, suas necessidades e vontades são simplesmente ignoradas pelo poder, não lhe é dada à voz. O mesmo acontece com as pessoas, as famílias, cada vez mais se fala somente o necessário, as pessoas se cercam de formas de se evitar a palavra, que é o que torna o ser humano único. A palavra é a melhor forma de comunicação para de trocar saberes, cultura, e cada vez mais o uso da palavra está sendo restringido a pequenos grupos. Quando negamos com o preconceito as palavras das outras tribos, os gestos dos outros guetos, nós excluímos o outro, limitamos a capacidade de evolução do pensar. Os debates de hoje não são mais formas de se chegar a conclusões inteligentes, são um verdadeiro bang-bang de frases de efeito.

    É o que vemos hoje: Siga a fila, faça silêncio, não perturbe, área restrita, deixe seu recado após o sinal, sorria você está sendo filmado. Na educação não é diferente, é óbvio que se deve ensinar a ler e escrever corretamente. Mas o que seria de Guimarães Rosa sem seus neologismos? De José Saramago sem sua não-pontuação? O Professor que repreende o jovem que diz "sangue B, a parada é loka" vai na mais perigosa contramão da educação. Entender a realidade que nos cerca, abrir para o diálogo, isto tenho certeza, irá contribuir para uma sociedade mais justa.



    Categoria: Reflexões
  • Até onde é legítimo reclamar do aluno?

    Postado dia 5/11/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 18:33 1 comentário
             Notas ruins, mau comportamento, agressividade, desrespeito. As razões que levam um professor/coordenador/diretor a reclamar de um jovem para os pais ou responsáveis são inúmeras, mas na grande maioria das vezes essa crítica não é feita com o devido cuidado nem a devida justiça.
             O sistema educacional se revela altamente frágil quando analisamos o acompanhamento do estudante. Nas escolas públicas, principalmente, não há a preocupação c em quem está do outro lado. Apenas malham o estudante invariavelmente, não importa se os pais são rígidos com ele, não importa se o estudante não se comporta bem por   professor e não importa as conseqüências que a reclamação com os pais pode acarretar na vida do estudante.
             Tenho várias experiências em que vi puro descaso com o aluno Uma das mais marcantes ocorreu com uma criança que freqüenta a Casa do Zezinho. Na época, o menino chegou para mim e disse: "Tia Dag, olha essa carta que a diretora do meu colégio mandou". Quando fui ler a carta me espantei sumariamente. A carta era essencialmente assim:
     
    Prezados Pais
    Seu filho é um retardado mental e não vai conseguir aprender em nossa escola.
    Favor encaminhá-lo a uma instituição específica.
     
             Claro que as palavras não eram essas, mas a mensagem era clara. Quando olhei a cara do menino, vi que ele forçava muito a vista para falar com os outros, resolvi mandá-lo ao oculista. Não foi a minha surpresa quando descobri que ele tinha nada mais nada menos do que 6 graus de miopia. Logo, respondi sumariamente à diretora: "Retardada mental é a senhora", a acionei na justiça, e foi despedida depois.
             Há uma tentativa clara das instituições de ensino de mascarar sua inabilidade para educar (métodos medievais de ensino) com um autoritarismo, repressão e não prevenção. Ao invés de se ouvir o estudante e entender quais motivos levam-no a ter dificuldades ou comportamentos agressivos, simplesmente o rotulam de "retardado", "agressivo", "mal-educado" sem conhecer os pais ou responsáveis, o que muitas vezes gera casos de violência doméstica, violência de moradia, violência de saúde, e violências e mais violências. Isso só piora a situação, pois deixa o jovem com cicatrizes de lama, cicatrizes auditivas, cicatrizes quase que incuráveis  para esse  esse aluno.
             Logo, a escola, que deveria ter o papel de educar, desenvolver a criança, acaba fazendo justamente ao contrário com isso, desperdiçando os potenciais desse estudante e prejudicando o resto de sua vida.  É preciso ter todo um cuidado com as pessoas que estamos lidando, seja os responsáveis ou o próprio estudante, temos de ouvi-los, tentar entender as razões sociais, culturais e, acima de tudo, pessoais. É isso que fazemos na CZ, acreditamos que para se educar alguém, é necessário que essa pessoa faça parte do processo e não seja mero receptor de informações e cumpridor de regras.
             Que fique bem claro: Não sou a favor de uma anarquia violenta e generalizada nas salas de aula. Acredito que, se ela ocorre, é porque falta algo a quem ensina, não posso jamais defender o autoritarismo bruto. Para se educar precisa-se conquistar o respeito. Através do silêncio amoroso de quem quer aprender.


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  • Escutar o silêncio

    Postado dia 10/10/2008 por Dagmar Rivieri Garroux às 10:41 2 comentários
    Certo dia, uma criança me ensinou a escutar o silêncio de uma folha a cair. Enquanto minha mente fervilhava cheia de dúvidas, com aquela intranqüilidade própria da juventude, ela, quieta, rezava por mim. Para eu ter paz.

    Os pensamentos vinham em torrentes, correntes fortes que me prendiam ao movimento do tempo e acabavam por devolver a consciência da trivialidade.

    Ela cantava, qualquer coisa que tinha o cheiro da Natureza. Falava de uma forma tão tranqüila que isso começou a fazer efeito. Já de olhos fechados eu mergulhei no silêncio. Até que ouvi o silêncio de uma folha a cair.
    Os meus sentidos aprumaram-se com o Norte, os nós foram desaparecendo. O pensamento calou-se.

    Por fim eu era já a alegria de com ela estender a mão ao mundo, acreditando profundamente no segredo de uma folha a cair no silêncio como um puro ato de amor.

    Hoje, toda vez que o meu pensamento me atrapalha, lembro a beleza da criança que iluminou a minha noite escura e me lembra sempre que é na quietude e no silêncio que a essência da Natureza se cumpre e na humildade que a grandeza se realiza.

    Escutar o silêncio de uma folha que corta o ar é a própria reza. Caminho de insondáveis mistérios que nos conduz ao que há de mais simples e por isso mesmo de mais sagrado em nós.

    Hoje também rezo para ela.

    Categoria: Reflexões
Perfil Nome: Dagmar Rivieri Garroux

Educadora Dagmar Rivieri Garroux, presidente da Casa do Zezinho
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